A Bolívia experimenta desde 2005, com a eleição de Evo Morales, um momento único em sua história política. Não só pela ascendência aymara de Morales, nem pela sua trajetória dentro do movimento “cocalero”, mas, sobretudo pela grande aprovação que este líder indígena conquistou em seu país (há cerca de cinco décadas e entre vários golpes de Estado, a cena política boliviana visualizava, em média, um presidente por ano). Porém, apesar de não ter extensões continentais como o Brasil, a Bolívia vem passando por diferentes processos em seus departamentos no que se refere à consolidação do MAS como partido político, ou como “Instrumento político para a soberania dos povos”, como antes era denominado. Em resposta a estes processos, tivemos o ocorrido nas eleições para prefeituras, onde o MAS perdeu em grandes cidades bolivianas, incluindo La paz. O que também é bem relevante ressaltar é que as oposições na Bolívia acontecem dentro da esquerda, pró Evo, mas nem sempre pró MAS. Evo, sem dúvida, é apontado dentro e fora da academia como o grande pluralizador dos movimentos sociais dentro da Bolívia, conseguindo reunir em seus apoios campesinos, cocaleros, mulheres, indígenas e setores da classe média. É aí que parece estar o grande problema que o MAS e o governo Evo enfrentará, entre os representantes que dialogam com as classes burguesas, o quase deposto ministro da economia, Luis Alberto Arce e o vice presidente mais ativo dentro das empreitadas presidenciais latino-americanas, Álvaro García Linera. Linera vem sendo criticado desde seus discursos sobre o capitalismo andino-amazonico, e a ele coube a tarefa de anunciar (Evo não estava no país) o aumento em cima do preço do petróleo, que culminou no aumento não só dos combustíveis (73% na gasolina, por exemplo) mas também a alteração de toda a economia do país, medida denominada como “gazolinazo”. Novamente viu-se na Bolívia bloqueios e protestos violentos tomando conta das ruas. Tal medida fez com as classes populares se agitassem e pela primeira vez, partindo-se para o sexto ano de mandato, se falasse na renúncia do primeiro presidente indígena da Bolívia, apesar de reeleito há menos de dois anos com 64% de votos. Questiona-se agora até que ponto o socialismo aclamado por Evo Morales (que negou até o termo capitalismo andino-amazônico para descrever suas políticas no país, continua a se diferenciar realmente do neoliberalismo imposto recentemente por Estessoro, Hugo Banzer e Goni, el gringo). Ferir a constituição e todos os ganhos com a nacionalização dos hidrocarbonetos conseguida em 2006 pareceu desafiar e afrontar as classes populares.
Por que tomar medidas mais fervorosas do que as estabelecidas por outros governos apontados como neoliberais? Garcia Linera negou o déficit fiscal que precisava ser coberto, mas o que tem chamado atenção é o contrabando de combustíveis (aqui a ponta de um outro problema junto às autoridades), principalmente com os países fronteiriços. A crítica ao governo do Evo fala em falsa nacionalização (mais um problema: o fracasso dos processos de industrialização do país e a não retirada das grandes multinacionais), não só do gás, mas também da água, conseguidos através das lutas em meados de 2000. Estaria Evo freando o processo iniciado por ele mesmo? Como sempre, quando se trata da Bolívia, mais acertado que dizer que é um país ingovernável é assegurar que não se pode subestimar o grau de consciência das classes populares, nem Evo escapa. Os levantes continuam e o ano na Bolívia se iniciou lembrando tempos recentes. Quem verá a credibilidade despencar junto com o “gazolinerazo”? Como tudo ainda está acontecendo, não dá para terminar este post, nem estas informações neste momento. Recomendo que fiquem atentos ao que acontece na Bolívia, pois se trata da primeira crise séria no governo de Evo. Em breve mais sobre o assunto.
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